“Dos blocos de construção até à construção radical”, Michael Geisler
Há um silêncio no pensamento alemão (ocidental) acerca do debate relativo aos “media” desde 1970 até ao final dos anos 80, que só foi quebrado por três excepções: o livro de Alexander Kluge de 1972, “Esfera Pública e Experiência: Para uma Análise da Esfera Pública Burguesa e Proletária”, o texto de Jürgen Habermas de 1981, “ A Teoria da Acção Comunicativa” e a obra de Niklas Luhrnann de 1984, “Sistemas Sociais”. No entanto, o contexto destas obras incidia principalmente no advento dos novos interactivos “media”, especialmente a propagação dos computadores pessoais e a nova prática comunicativa via “internet”. Neste artigo, Michael Geisler pretende referir quer as roturas quer as continuidades da recente teoria alemã sobre os “media”.
A teoria crítica da Escola de Frankfurt referente à sociedade industrial, durante quase meio século, foi considerada um dos paradigmas dominantes do pensamento ocidental sobre a teoria dos “media”, nomeadamente a obra de Adorno e Horkheimer “Dialéticas do Iluminismo” (1944) – embora não sendo tão popular como a de Marshall McLuhan – e o ensaio de Walter Benjamin, “A Obra de Arte na Idade da Reprodução Mecânica” (1935), cuja noção de nova qualidade no discurso público inspirou o ensaio de Hans Magnus Enzensberger, “Kursbuch – Constituintes da Teoria dos Media” (1970).
Este ensaio de Enzensberger foi o texto interpretativo mais importante depois de Walter Benjamin para a teoria alemã sobre os “media” e influenciou a obra de Siegfried Zielinski, “Audiovisuais: Cinema e Televisão como Interlúdios da História” (1989).
Não obstante continuar a ser sentida a influência crítica da Escola de Frankfurt, a área significativa do debate sobre os “media” mudou para as concepções pós-modernistas francesas e o construtivismo radical. É exemplo desta última tendência a obra de Siegfried J. Schmidt, “O Discurso do Construtivismo Radical” (1986), que inaugura um novo paradigma para a teoria crítica sobre os “media” baseado não como anteriormente na manipulação das imagens, mas sim na ideia de que qualquer género de conteúdo básico crítico da comunicação mediática podia render resultados significativos se não houvesse nada para os “media” comunicar, passando a crítica de uma base ideológica para uma base epistemológica.
Os “Sistemas de Discurso” de Kittler
O livro de Friedrich Kittler, “Gramofone-Filme-Máquina de Escrever” (1986), muito popular nas universidades alemãs, é uma história interpretativa social destes três “media” primários. Esta análise histórica tem por base uma segunda história narrativa sobre a descrição dos vários caminhos nos quais estes “media” foram discursivamente tematizados na literatura, ou como ele próprio diz, a “auto-inscrição” destes “media” nos meios da impressão. Está implícita na sua concepção que o alcance inovador destes três meios engloba ou, pelo menos antecipa, toda a revolução mediática desde os anos de 1880 até aos nossos dias e até para além deles.
A proposta do livro – não obstante ter algumas páginas envelhecidas ou esquecidas – é a de ir atrás no tempo e tentar ver através dos pontos de vista dos escritores contemporâneos ou dos filósofos como Nietzsche e Rilke, na esperança de descobrir mudanças forjadas pelos novos “media” na estrutura profunda da própria cognição. Na altura em que estes três meios mecânicos primários começam por separar os actos comunicativos relativos à audição, vista e escrita em três distintos processos de reprodução mecânica, a nossa percepção sensorial muda na maneira como percebemos ou como construímos a realidade.
Kittler olha para a máquina de escrever não como um simples utensílio de escrita, mas como um meio que afecta a natureza do próprio processo de escrita de um modo tão radical como sucedeu séculos antes com a invenção da impressão mecânica, na medida em que o próprio meio utilizado modifica a nossa cognição e o modo como construímos a própria realidade. Inspirando-se em Nietzsche e em Heidegger vê a máquina de escrever como uma forma precoce da digitalização, abrindo caminho para os novos “media” que a introdução dos computadores e mesmo a invenção da televisão, da rádio, do cinema e da fotografia produziram.
Kittler acredita que estes três meios primários de “media” marcam o início de um longo processo de exteriorização da experiência física, acabando por conduzir à digitalização da realidade e à deslocação do ser humano do centro da epistemologia. Nesta medida, o seu radical construtivismo, diz Geisler, aproxima-se do pessimismo cultural da Escola de Frankfurt e – não obstante algumas notáveis excepções – da teoria alemã sobre os “media”.
Dentro deste debate uma das posições mais relevantes é a de Hans Magnus Enzensberger, principalmente na sua mais recente contribuição intitulada “O Grau-zero dos Media, ou Porque Todas as Queixas Sobre a Televisão São Inúteis” (1989).
Segundo ele, dentro de um estilo satírico, chega-se à conclusão de que nos estamos a queixar junto do sítio errado: para Enzensberger a televisão é usada primariamente como um processo bem definido para fazer uma agradável lavagem ao cérebro e, nessa medida, é uma forma de auto-medicação para a higiene individual. O seu grau-zero como “media” é a única e mais ampla e universal forma de psicoterapia, equivalente a uma tecnológica aproximação ao nirvana.
Norbert Bolz nas Ciber-Arcadas
Na linha de Kittler, Norbert Boltz tem posições mais radicais, expressas nos seus três volumes da teoria sobre os “media”: “Teoria dos Novos Media” (1990), “No Fim da Galáxia de Gutenberg” (1993) e “O Caos Controlado” (1994), onde defende que não são os “media” – quer os antigos, quer os novos – que provocam roturas na acção inter-humana, mas os próprios humanos, ou seja, as deficiências do humanismo como um paradigma epistemológico.
Boltz baseia-se em Nietzsche, Walter Benjamin e McLuhan para suportar a sua posição que se expressa na sua teoria dos “media” que, quando é praticada como uma extensão dos tradicionais modos da crítica cultural, simplesmente perde a sua marca. Os novos “media” têm de procurar um catalisador numa estética que se aproxime do conceito original grego de “aisthesis”.
Na fascinação de Nietzsche pela obra de arte total de Wagner, com os cinestésicos efeitos produzidos pela sua música, Bolz descobre antecipadamente a teoria dos novos “media”, quando considera que Nietzsche demonstra como Wagner reconciliou as componentes física e intelectual da experiência sensual que a cultura ocidental tinha separado devido à influência da filosofia helenística.
Justamente como Wagner, Nietzsche considera que este suspendeu as ficções críticas, tais como as distinções entre obra e “performance”, música e linguagem, estilo e conteúdo na experiência cinestésica da obra de arte total, do mesmo modo que as realidades virtuais criadas pelos novos “media” tocam as suas áreas directamente nos nossos sentidos em estado puro, ultrapassando a esfera da avaliação crítica referida geralmente como a “apreciação”.
Neste contexto, Bolz considera que a obra referida de Walter Benjamin representa o interface entre a Galáxia de Gutenberg e o mundo dos novos “media”. A sua aceitação do potencial libertador dos novos “media” torna-se assim menos visionária e idiossincrática e mais sincrónica e pós-moderna:
“Já não existe mais uma diferença entre o mundo mecânico e o mundo orgânico: a tecnologia torna-se tão natural como os membros do homem; sem contradição, os humanos fundem-se com os seus instrumentos; a matéria morta é transparentemente implantada em organismos vivos. Pessoas com “handicaps” físicos, que dependem de próteses e já não as vêem como objectos estranhos apontam o caminho para o vídeo futuro. A extensão do homem que nós chamamos “media” já não está lá fora. Portanto, fazendo justiça à realidade tecnológica dos novos “media” implica duas coisas: primeira, os instrumentos têm de ser submetidos a uma internalização colectiva; segunda, o corpo colectivo precisa de ser organizado dentro da esfera tecnológica.
(Bolz,“Theorie der neuen Medien”, 98. Tradução feita a partir da versão inglesa)
As Perplexidades de Winkler
A mais original, historicizada e desapaixonada análise das novas tecnologias dos “media” vem de Hartmut Winkler, um elemento da Escola de Frankfurt que não parte do departamento de sociologia, mas sim do de cinema: “Docuverse. Para uma Nova Teoria dos Computadores” (1997).
Nesta obra, Winkler dá alguns passos epistemológicos atrás naquilo que são consideradas as premissas normalmente aceites pela teoria alemã ocidental do debate sobre os “media”. Ele apoia a sua vassourada crítica em Bolz – e menos extensamente em Kittler – afirmando ficar perplexo com aquilo que considera ser um paradoxo central no debate: em primeiro lugar, um público que parecia habituado nos últimos 100 anos a uns “media” baseados na imagem, na visualização, na experiência sensorial imediata, parece agora dirigir toda a sua atenção para um dos “media” que não tem absolutamente nada de sensual, nem absolutamente nada de visual e que oferece muito pouca satisfação imediata, como é o caso do computador.
A sua segunda perplexidade é que este paradoxo nunca parece ter sido referido pelos outros participantes neste debate mediático. O computador, naquilo que se refere ao tempo presente, é um meio sequencial de rajada, como a linguagem, e com uma linguagem-baseada e linguagem-dirigida, quer se trate de código ou de linguagem verbal.
Para Winkler a “internet” é uma “máquina de desejos” que permite uma linguagem eufórica nos manuais que a ela se referem, salientando a ilimitada plenitude do armazenamento de memória, o acesso instantâneo, a comunicação não censurada nem hierarquizada e as ligações universais sustentadas.
As suas críticas centram-se na desconstrução destas fantasias do desejo como delírios ideológicos. Ele desenvolve então a sua narrativa principal sobre a cíclica história dos “media”, na qual todos os meios técnicos, a partir da fotografia e do filme, aparecem como sucessivas implantações mecânicas orientadas para revestir sempre a mesma insatisfação: a “balcanização” da realidade experienciada na acentuação da sempre maior incrementação da divisão social do trabalho, ou seja, da diferenciação social.
Winkler refere que esta diferenciação não se refere ao conceito de Marx da alienação entre os trabalhadores e o produto do seu trabalho, mas na tensão exercida na memória colectiva pelo puxão centrífugo dos diferentes mundos de vida. Ele desenvolve um modelo dicotómico de linguagem, com base na linguística, na antropologia e na ciência cognitiva, que considera a existência de duas linguagens:
A “linguagem-1” significa textos articulados, materializados em sequências lineares e a “linguagem-2” representa a “parte sistémica” da linguagem, uma não-linear, estrutura virtual, uma n-dimensional rede existente só como um repositório nas memórias colectivas de todos os utilizadores da linguagem.
No momento histórico em que os computadores entram em cena, bem como a “internet”, passa a haver a promessa da reconciliação da “linguagem-1” com a “linguagem-2”, dado que estabelece uma ligação entre a dolorosa lacuna que há entre a memória individual e a memória colectiva. A leitura radical contida neste conceito é que a “internet”, como um “media”, não é tanto um outro mundo, uma transgressão, mas sim uma espécie de laço hegeliano, um regresso à “Galáxia de Gutenberg”, embora numa outra dimensão epistemológica.
Conclusão
Entre 1960 e os finais da década de 80, tomando de empréstimo uma frase de John Fiske e John Hartley (na sua obra de 1978, “Reading Television”) que chamavam à televisão a “Era dos Bardos” (“Bardic Era”), ou seja, o tempo no qual a televisão serviu como o instrumento mais mediático com o maior discurso público, o ensaio de Enzensberger, “Blocos de construção” (“Building Blocs”) foi o único texto com substância sobre a teoria dos “media” produzido pela Alemanha.
Não era – e isso faz com que a insistência de Winkler na mudança linguística feita pela “internet” se torne tão intrigante – até que a nova textualidade oferecida pela “net” prometeu pelo menos um regresso parcial à Galáxia de Gutenberg e que fez com que a teoria alemã elevasse outra vez a sua voz, embora tenha sido para proclamar o fim desse paradigma.
O último texto de Enzensberger sobre o grau-zero dos “media” permanece como uma referência emblemática para a mudança de paradigma na teoria alemã sobre os meios de comunicação social. Partindo de McLuhan, a questão posta pelos alemães incide sobre qual a espécie de mensagem que os “media” produzem. O interesse que foi posto na questão sobre a materialidade dos “media” produziu um numeroso conjunto de posições sobre a aparente familiaridade dos novos meios de comunicação social e os seus conceitos, produzindo uma importante contribuição cognitiva para a história dos meios de comunicação social e para a compreensão da mudança de paradigma que foi efectuada desde a invenção do primeiro dispositivo autodinâmico. O facto de ainda não estar concluída essa mudança paradigmática leva-nos a continuar interessados em saber onde nos conduz esse caminho.
Contudo, todas estas contribuições aqui referidas nos anos mais recentes, qualquer que seja a diferença de aspectos que referem, não deixam porém de constituir uma continuação do desmascaramento crítico feito pela Escola de Frankfurt sobre os meios de comunicação social por outra forma.
A mais perturbadora forma da continuidade histórica – em que especialmente as teorias de Kittler e Bolz se revelaram – constitui uma certa tendência que existe no pensamento alemão, de Heidegger até Luhmann, relativamente ao uso de examinar as estruturas pela abstracção a partir da prática da interacção humana.
E conclui Michael Geisler: “Esta espécie de paradigma teorético pode aparecer como sendo uma desvantagem quando se lida com a prática que é produzida industrialmente, socialmente articulada e negociada e impregnada no mito popular. Ou,
apresentando isso de outro modo: uma tradição teorética fixada no trabalho artístico autónomo e no autor individual poderia estar mais inclinada a acreditar no fim da individualidade do que na textualidade como prática social.”